Na fila do pão, o pão ficou para depois

Por Julia Maciel

O silêncio que tomou conta da abertura do 33º Congresso Internacional do Trigo, no Rio de Janeiro, só não foi absoluto porque o cricrilar de um grilo ocupou o auditório. Foi a reação quase cômica do público quando o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, após admitir falhas da gestão na política agrícola, arriscou uma defesa pública da continuidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em um salão lotado por moinhos, produtores e indústrias de massas e biscoitos, Campos foi uma voz isolada.

A cena resumiu o espírito dos corredores do evento. Tecnicamente, a pauta do trigo clama por socorro e não é de hoje. Mas o cenário atual acrescenta maior tensão na cadeia: o Brasil se encaminha para registrar a maior importação de sua história diante da expectativa — e já realidade em algumas regiões — da safra doméstica. No entanto, o insumo no balcão ficou esquecido. Na fila do pão montada no hotel da orla da Barra da Tijuca, o assunto entre palestrantes e convidados, brasileiros e estrangeiros, é rigorosamente um só: a disputa de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL) no domingo, 25.

A distração política ocorre no exato momento em que a matemática da indústria moageira aperta. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita brasileira de 5,8 milhões de toneladas, uma queda de 26,2% em relação ao ciclo anterior, reflexo da redução de área pelos altos custos dos fertilizantes no início do ano, com o advento da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, da manutenção do conflito da Rússia contra a Ucrânia, e do excesso de chuva no Paraná e no Rio Grande do Sul durante a colheita.

Para cobrir o buraco, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) projeta compras externas superiores a 9 milhões de toneladas, o que significa que duas em cada três toneladas consumidas no Brasil virão do exterior. Essa dependência externa chega em um ambiente de margens estranguladas para os moinhos. Além da volatilidade cambial típica do período eleitoral e da alta dos fretes e seguros internacionais puxada pelo agravamento do conflito no Irã, o setor absorveu aumentos de alíquotas de PIS/Cofins sobre o trigo importado e a perda de benefícios fiscais.

Para completar, a Argentina, a nossa principal fornecedora, projeta uma safra de 23,4 milhões de toneladas, mas a qualidade do grão está sob ameaça em função das chuvas, que podem provocar perdas e doenças no cereal.

A dura realidade do setor, pelo visto, sucumbiu à temperatura das urnas. Como avalia o ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente executivo da Abitrigo, a insatisfação com a política agrícola do governo federal fez o agronegócio marchar quase em bloco em apoio a Flávio Bolsonaro.

Ciente de que a fatura do abastecimento chegará no dia seguinte à eleição, Daniel Kümmel, presidente do Conselho Deliberativo da Abitrigo, tentou reestabelecer o pragmatismo ao enfatizar que a pauta da indústria “é de Estado, e não de governo”, oferecendo interlocução técnica a quem quer que vença no domingo.

Resta saber se o próximo ocupante do Palácio do Planalto terá a mesma disposição para olhar para os custos da mesa do brasileiro. Até domingo, os bastidores do setor do trigo continuarão com os olhos fixos nas pesquisas. Mas a partir de segunda-feira, sem a cortina de fumaça das urnas, o repasse de preços para a farinha, a massa e o pãozinho da padaria vai cobrar uma conta que nem o grilo da abertura conseguiu disfarçar.

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