O pastel do ministro tem recheio

Francisco Carlos de Assis

Na manhã do ensolarado domingo de 4 de outubro, quando a luz enfim devolvia a São Paulo um certo alívio após a sequência de dias de chuva, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a um colégio tradicional no bairro dos Jardins para votar.

Veio acompanhado da mulher e das filhas, com a naturalidade de quem, por mais que carregue o peso de cifras e decisões, ainda precisa cumprir o rito simples – e imenso – de depositar um voto, e seu dever de cidadão. Era o voto pela reeleição do governo Lula, a quem serve desde o início do mandato, primeiro como secretário-executivo, o número dois da Fazenda, até assumir o posto principal.

Na entrada, avisou que falaria com a reportagem da Broadcast – a única presente por ali – e cumpriu a palavra sem adiar, sem criar bordas. Animado e amistoso como de costume, sugeriu que a conversa acontecesse sob o arvoredo do parque em frente ao colégio, que guardava um silêncio raro para São Paulo, maculado por passos, pelo roçar das folhas e por vozes baixas de eleitores que, como quem atravessa uma sala de espera, procuravam um lugar para caber na própria manhã.

Enquanto conversávamos, a “Sra. Durigan” levou as meninas até uma banca de pastéis próxima à calçada do parque. A fritura tinha um cheiro que não negocia: um convite direto aos mais famintos, aos apressados, aos que saíram cedo de casa e perceberam tarde demais que o estômago também vota.

Encerrada a conversa, a cena perdeu qualquer verniz de solenidade. Papai, mamãe e filhinhas escolheram um banco sob a sombra e saborearam a guloseima. O repórter – um ser que observa o mundo tentando não tocá-lo – não resistiu: agasalhou um pastel, acompanhado de um caldo de cana que veio doce e geladinho.

Possivelmente ali, naquela atmosfera, entre uma mordida e outra, entre o recheio e o vapor, nasceu a metáfora que dias depois ganharia microfones e manchetes. Na quarta-feira, 7, durante evento da Abrainc, em São Paulo, Durigan repetiria pelo menos cinco vezes uma expressão de sua lavra para classificar a promessa de ajuste da ordem de 2% do PIB, algo em torno de R$ 200 bilhões, lançada pelo candidato do PL à Previdência Flávio Bolsonaro: “pastel de vento”.

No dia seguinte, em entrevista à CNN Brasil, o ministro voltou ao tema e disse que Flávio vende e o mercado compra “pastéis de vento”. A política, quando desce do palanque, frequentemente escolhe a cozinha para se explicar. No frigir dos ovos o que Durigan parece querer dizer é simples: promessa sem substância engana por fora e some por dentro. Como quem diz: “o meu pastel e o dos que estiverem ao meu lado tem muito recheio.”

Todo mundo entende, sem planilha nem gráfico, a diferença entre morder ar e encontrar sustância.

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