Ninguém aguenta mais

André Marinho

Dólar, Ibovespa e quase toda classe de ativos de risco contam a mesma história desde o primeiro turno das eleições presidenciais: o mercado deposita em Flávio Bolsonaro (PL) a esperança para condução das reformas estruturais que equilibrem as contas públicas e levem à redução dos juros. Por essa perspectiva, não é exagero concluir que há uma certa dose de torcida para que o senador evite a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no próximo domingo.

Mas as conversas de corredores na Faria Lima revelam um cenário com mais nuances do que a euforia nas mesas de operações parece indicar. Ainda há alguma dose de desconfiança em relação à capacidade de Flávio de mobilizar uma agenda econômica que demanda medidas potencialmente impopulares.

O próprio candidato já prometeu manter o ajuste real do salário mínimo e a obrigatoriedade constitucional de gastos com saúde e educação. No Senado, votou a favor do fim da escala 6 x 1 e negou planos de reverter a medida aprovada na semana passada. Aliados dele também já tiraram da mesa as chances de privatização de Banco do Brasil e Petrobras.

Um experiente economista, com trânsito em alguns círculos de Brasília, alertou que Flávio teria que cometer “estelionato eleitoral” para recuar nesses pontos. Para ele, que defende o ajuste fiscal, sobrariam poucas oportunidades para cortar as despesas na carne e reorganizar as finanças públicas. Ainda assim, esse interlocutor prefere Flávio a Lula e descartou risco institucional com a volta do bolsonarismo.

Enquanto as pesquisas mostram uma disputa apertada, o sentimento que supera qualquer eventual torcida é a ansiedade por uma definição do pleito. Independentemente de quem saía vencedor, a Faria Lima quer mesmo é a virar a página. “Eu não vejo a hora de chegar segunda-feira”, me disse espontaneamente um executivo do setor segurador “Ninguém aguenta mais esse assunto de eleição.”

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