Tropa de Choque

Luciana Collet e Renan Monteiro

A Enel São Paulo recrutou uma verdadeira tropa para tentar convencer diretores da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de que a recomendação da caducidade de seu contrato de concessão não seria a melhor decisão. Em reunião no órgão regulador que visava deliberar sobre o tema, na terça-feira, 06, alternaram-se no púlpito da sala de diretoria da agência, o ex-Aneel Tiago de Barros Correia, consultor da Enel no processo e que fez a defesa formal da concessionária no processo, e o presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, Eduardo Annunciato. Adicionalmente, em vídeos editados para transmissão na ocasião, dirigentes de entidades do setor produtivo e prefeitos de diversos municípios se revezaram na defesa da empresa.

Correia, embora com farta argumentação técnica e objetiva, chegou a fazer metáfora sugerindo que a empresa estaria em “quimioterapia” mesmo quando já “em remissão”. Ou seja, o tratamento dado à empresa pelo regulador já teria surtido efeito para melhoria do serviço e o arquivamento do processo seria a melhor saída. Isso resume bem o argumento da empresa para continuar no comando da maior concessão do setor de distribuição no Brasil, a despeito das falhas apresentadas durante eventos climáticos nos últimos anos.

Annunciato apelou ao Todo-Poderoso, para que tocasse “mentes e corações” dos diretores e tomassem uma decisão alternativa à caducidade. “Pelo amor de Deus, que seja reavaliada essa posição, é um ponto que os trabalhadores pedem com muita veemência, em especial os aposentados e as pensionistas; os velhinhos estão morrendo do coração com medo do que pode acontecer”, apelou, após explicar que funcionários, aposentados e pensionistas temem que o rompimento do contrato afete a previdência privada custeada pela empresa, conforme previsão contratual.

O vice-presidente do Sindicato da Indústria de Instalações Elétricas, Hidráulicas e Sanitárias (Sindinstalação), Silvio Valdissera, também diretor-secretário da Fiesp, afirmou que as indústrias paulistas estão preocupadas que a complexidade na substituição da empresa traga “prejuízos incomensuráveis” e também defendeu a busca por “outras soluções”. Já o presidente do Sindicato da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon), Yorki Estefan, disse que os trabalhos entre as construtoras e a distribuidora foram aprimorados, superando “momentos críticos”, e sugeriu que a troca da concessionária traria instabilidade.

Prefeitos de 22 cidades também se alternaram, em vídeo editado pela companhia para tentar demonstrar que a empresa melhorou o diálogo com as prefeituras.

A grande ausência nesse batalhão de prefeitos foi Ricardo Nunes, prefeito do município de São Paulo e mais intenso crítico da atuação da Enel. Surpresa, mesmo, seria se ele saísse em defesa da empresa após ter pedido cancelamento do contrato e intervenção federal na concessão.

A discussão do processo terminou sem decisão, após o diretor Gentil Nogueira ter pedido vista do voto da diretora Agnes Costa. Ele justificou que queria se aprofundar no extenso documento apresentado pela colega, que foi compartilhado com a diretoria apenas naquele dia. Com isso, até agora a recomendação de caducidade tem dois votos favoráveis e sinalizações de um terceiro (o que formaria maioria), do diretor-geral, Sandoval Feitosa.

Ainda assim, por ora, executivos da Enel respiram com algum alívio, à espera do tema voltar à pauta.

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