A febre dos servidores

Por Aramis Merki II

No inglês Booming… Em bom português, efervescente. As palavras, sob medida, servem para explicar o momento pelo qual passa o segmento de servidores na esteira da revolução da era atual: a inteligência artificial. Afinal, a expansão dos data centers e dos servidores para processamento de IA acompanha uma transformação mais ampla na forma como empresas e instituições decidem onde processar seus dados, quanto gastar com computação e como garantir soberania sobre informações estratégicas.

Para Hélio Bruck Rotenberg, presidente da Positivo, espera capturar parte desse movimento com a fabricação local de servidores e uma oferta que combina hardware, serviços e software. Nesse cenário, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) aparece como um acelerador adicional dos investimentos e, na avaliação do executivo, pode abrir espaço para uma expansão da fabricação nacional de servidores. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Broadcast: O Brasil avançou nos últimos meses com iniciativas como o Redata e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Como você avalia esse conjunto de medidas e o que ainda pode ser desenvolvido para fortalecer o ecossistema brasileiro de tecnologia e inteligência artificial?

Hélio Rotenberg: Por questões políticas, o ReData não saiu antes, mas acho que avançamos muito. O fato de ter saído o PBIA, de ter saído o Redata e ter essa discussão tão adiantada do data center soberano traz o País de novo para o jogo. Temos o Redata para atrair data centers. O Brasil é propício para data centers. A gente tem o PBIA, que vai colocar a academia brasileira na ponta. O governo brasileiro na ponta com servidores superatuais. Também a questão da proteção do dado, da soberania dos data centers. Data center soberano ainda é um conceito em discussão. O que é soberano? O que é que tem que ser brasileiro? A camada de software? É o dado aqui? Tudo isso ainda está em discussão. Mas tudo isso junto cria um ecossistema que não tínhamos há seis meses.

Broadcast: A Positivo enxerga, para além do ReData, outros fatores que impulsionam a demanda por servidores da Positivo em 2026?

Rotenberg: Acreditamos que a demanda vai crescer bastante. Isso é inexorável, independente do Redata. É um movimento de continuidade. Então, se fala de data center de inteligência artificial, se fala de servidores próprios [on-premises] para processamento de inteligência artificial. Os institutos de pesquisa, as grandes empresas brasileiras, os data centers, estão todo mundo discutindo esse: onde é que eu vou processar a inteligência artificial, onde é que eu vou gastar, como é que eu diminuo o custo de token. Então, o mercado de servidores hoje, no Brasil, está – a palavra que me vem à cabeça é “booming”. Está efervescente.

Broadcast: Com o avanço da inteligência artificial e da demanda por capacidade computacional, onde a Positivo consegue competir e quais são os diferenciais de uma fabricante brasileira nesse mercado?

Rotenberg: Nós conseguimos competir no Brasil, em primeiro lugar, porque somos brasileiros. O mercado brasileiro é fechado, adotou uma política que incentiva a produção local. Então é uma competição muito mais no Brasil do que uma competição mundial. Nós lançamos antes aqui – enquanto as multinacionais lançam primeiro nos mercados desenvolvidos. Temos fábrica, toda a decisão é aqui. ALém disso, hoje temos uma grande empresa de serviços. Nós compramos a Algar TI, hoje Positivo S+, que é uma empresa com 4,5 mil pessoas trabalhando. É uma capacidade para instala os servidores, mantê-los, nesse contexto que os data centers estão crescendo.

Broadcast: Quando se fala em soberania tecnológica, até onde o Brasil deveria avançar em áreas como chips e processamento e onde você vê espaço para a indústria brasileira?

Rotenberg: Existir uma indústria local de hardware é extremamente importante. Na pandemia, se não existisse uma indústria de hardware nacional, nós não teríamos fabricado nove mil respiradores em três meses. É um exemplo do quanto é importante ter uma indústria local. Mas fazer o processador é muito específico. Os processadores atuais são feitos por designers americanos e produzidos na [indústria taiwanesa] TSMC ou em solo americano. O Brasil está bastante atrás, não temos formação de designers em quantidade suficiente e nem capacidade de investimento de bilhões de dólares que precisam ser feitos. Não sei se é na indústria de chips que deveríamos focar. Somos bons em software, há startups surgindo na área de IA.

Broadcast: A companhia tem softwares embarcados nos equipamentos que vendem, como a inteligência artificial nos computadores pessoais e os programas das máquinas de pagamento. Esse desenvolvimento de software pode se tornar uma vertical própria dentro da Positivo, além do hardware?

Rotenberg: Normalmente, vendemos primeiro o hardware e, através disso, nós vendemos software ou um serviço Lançamos agora uma ferramenta para o split payment [novo modelo de recolhimento de tributos nas operações de pagamento implantado na reforma tributária]. Não tem a ver com o nosso core business, mas colocamos na nossa máquina de pagamento. Mas o nosso foco principal é ser uma empresa de hardware mais serviço agregado.

Broadcast: Além da vertical de servidores e de produtos de consumo, como computadores e tablets, a Positivo tem a vertical de pagamentos. Vocês esperam que essa área ganhe mais representatividade na receita da companhia nos próximos anos?

Rotenberg: Este ano está crescendo bastante e ainda vai crescer mais. Fizemos as primeiras vendas de máquinas de pagamento em outros países. Vamos começar a entregar na América Latina. Estamos praticamente em todos os grandes adquirentes brasileiros, vendendo maquininha e, para alguns, o ecossistema como um todo.

Broadcast: Diante das oportunidades nas três verticais atuais, a Positivo avalia abrir novos negócios ou o foco, neste momento, está em consolidar essas áreas?

Rotenberg: Nesse momento, não, pois temos oportunidades muito grandes com as verticais que já temos. Estudamos internacionalizar algumas coisas, mas o mercado local está muito pujante. Isso não quer dizer que a gente não tenha uma ideia daqui a seis meses ou um ano, porque nós somos empreendedores.

Broadcast: Há espaço para internacionalizar os negócios de servidores e infraestrutura de TI?

Rotenberg: Sim. Acredito que demore um pouco, justamente porque o mercado brasileiro está tão pujante neste momento que eu acho que não temos forças para uma expansão internacional simultânea. Mas temos empresa de serviços que atende grandes empresas fora do Brasil, então é um caminho natural.

Broadcast: As vendas para o setor público ainda são uma frente estratégica para a Positivo ou a companhia busca reduzir a dependência desse mercado?

Rotenberg: Não temos uma dependência do setor público. A Polícia Federal comprou servidores nossos porque a gente entrou na licitação e ganhou. Assim como a Sul América Seguros compra servidores nossos. Se a gente ganhar a licitação no PBIA, talvez no ano que vem o porcentual vendido em licitação pública seja maior do que neste ano, que não teve PBIA nem urna. Quando teve o projeto da urna eletrônica, naquele ano, a urna significou um porcentual importante do faturamento. Este ano, sem urna, o setor público é menos representativo.

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