Picanha no prato? Melhor mudar de assunto

Tânia Rabello

Vença quem vencer no segundo turno da eleição presidencial 2026, é o bolso do consumidor de carne bovina que sofrerá em 2027. Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) bradava, na campanha de 2021, que garantiria picanha mais barata, o que conseguiu relativamente por um período, na atual fase nem Flávio Bolsonaro (PL) nem o petista deveriam se arriscar a colocar o tema na campanha.

O corte de carne vai ficar mais caro em 2027. Isso é fato. E o vencedor do pleito terá que lidar com a insatisfação do brasileiro – voraz consumidor de carne vermelha – com os preços cada vez mais altos da proteína.

O encarecimento da carne bovina não depende de políticas públicas, erráticas ou não, mas sim de um comportamento sazonal da atividade pecuária. Especialistas são unânimes em afirmar: entramos no ciclo de alta da arroba do boi.

O “termômetro” para isso é o menor abate de vacas e novilhas, que, em vez de virarem carne, começam a ser alojadas para parir o “gado de reposição”: bezerros e bois magros, que, mais tarde, vão crescer, engordar e ir para o abate. O motivo dessa retenção de reprodutoras é que o preço da reposição também vem subindo, compensando a atividade.

Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao segundo trimestre de 2026, já dão conta de que os pecuaristas estão enviando menos fêmeas para os frigoríficos. Na B3, os preços futuros do boi gordo estão batendo quase nos R$ 400 por arroba em março de 2027, ante cerca de R$ 360 agora.

A conta é simples: com menos animais para abate (num universo de vacas, novilhas e bois), a indústria é obrigada a pagar mais pela arroba, o que resulta em uma sinuca de bico: reduzir margens ou cobrar mais pelo produto. Por isso, em 2027 a capacidade do consumo interno será fator decisivo.

Especialmente no primeiro semestre do próximo ano, mais duas variáveis podem acentuar a maior busca por animais prontos para abate: a corrida da indústria exportadora para preencher a cota estipulada pela China, de 1,128 milhão de toneladas para 2027 sem sobretaxa, e uma eventual abertura de cotas adicionais de exportação de carne bovina para os Estados Unidos livre de encargos. Neste ano, por exemplo, Donald Trump, o presidente norte-americano, abriu uma cota extra de 300 mil toneladas de carne magra para o Brasil, na tentativa de controlar a inflação interna da proteína.

O fator China é praticamente certo que ocorra. O fator EUA, não necessariamente. Adicione-se a isso a demanda internacional por proteína animal, que vem se intensificando e favorecendo o Brasil. Um ponto de alívio é que se espera leve crescimento na produção de carne bovina pelo Brasil em 2026, mesmo com menos vacas sendo abatidas, pois bois têm a carcaça mais pesada e rendem mais carne.

Em resumo, quem ganhar leva a faixa presidencial. Não necessariamente os louros de baratear a picanha.

O post Picanha no prato? Melhor mudar de assunto apareceu primeiro em Broadcast – O mercado financeiro em tempo real.